“O cara lá em cima é meu amigo, só me colocou ao lado dos bons”.  Durante nossa conversa, Antônio Carlos da Conceição repetiu essa frase mais de oito vezes. Presidente da Escola de Samba Unidos da Villa Rica, da Ladeira dos Tabajaras, não é à toa que Antônio faz questão de dizer o quanto teve sorte na vida. Foi numa tarde de chuva, na quadra da escola, que ele começou a nos contar sua história…

Com 64 anos na carteira, Antônio confessa: “Tenho mais. Fui registrado com atraso”. Baiano, de Salvador, chegou aos 10 anos no Rio, onde foi morar com a mãe na comunidade de Copacabana. “Era rural, não tinha rua, era tudo barro. Na minha infância, trabalhei na pracinha do Bairro Peixoto com cavalos, puxando charretes. Aquilo ali era uma Chácara do Peixoto.

A Figueiredo de Magalhães só ia só até a Rua Toneleiros, depois era tudo barro. O túnel velho era onde passava o bonde”, relembra. Aos 14 anos, o menino resolveu ser dono do próprio nariz. A casa da mãe era a base, mas ele vivia na rua, onde acabou virando vendedor de Papagaio. E quem frequentou a praia naquela época, década de 60, sabe que assim eram chamadas as pipas vendidas em diferentes pontos da praia.

“Eu ficava em frente ao Hotel Olinda, em Copacabana”, conta ele, que chegava a vender 30 papagaios por dia. “Em dólar!”.E foi um dia, voltando do trabalho, chegando à hospedagem em que morava na Lapa, já com 18 anos, que ele vivenciou um momento inesquecível. “Ali eu percebi o quanto o cara lá em cima era meu amigo”.  Uma blitz policial acontecia no local. Os oficiais revistavam os moradores e faziam uma triagem para saber quem era “vagabundo” e quem era trabalhador. “Naquela época vadiagem era crime. Quem não tivesse carteira de trabalho era preso três meses”, esclarece. O policial pediu então a Antônio seus documentos. Ele explicou que não tinha carteira, mas que era trabalhador, vendia pipa na praia. “Ele não acreditou, claro. Queria que eu provasse o que estava dizendo. Eu disse que a única coisa que eu tinha era uma nota fiscal das pipas no bolso. Ele disse que isso não era prova. Qualquer um poderia arrumar uma nota fiscal”, lembra. Mas o jovem insistiu para que o policial desse ao menos uma olhada. “Ele abriu a nota e sabe o que aconteceu? Caiu um monte de areia… e ele me liberou”, conta emocionado.

O grão de areia salvou Antônio da prisão e a praia levou o vendedor de pipas para o gabinete do ex-presidente Juscelino Kubitschek. “Isso mesmo. Eu trabalhei ao lado do cara. Entreguei correspondências para o Oscar Niemeyer e convivi que gente grande”, orgulha-se o ex-datilógrafo e arquivista do escritório da Nossa Senhora de Copacabana, 1.072, cobertura. O emprego veio através de Regina Batista, que era secretária de Juscelino e esposa de João Batista, um frequentador da rede de vôlei localizada no ponto onde Antônio vendia suas pipas.

“Ela me via ali, correndo atrás, fazendo supletivos, estudando, até que um dia me perguntou se eu não queria trabalhar com ela. Eles me pagaram um curso de datilógrafo na Remington do Brasil”.No dia 13 de dezembro de 1968, saiu o Ato Institucional assinado por Arthur Costa e Silva. No mesmo dia, Juscelino estava sendo preso no Theatro Municipal, onde Antônio o esperava na coxia. “Ele era paraninfo de uma turma de formandos. Quando ele foi levado pelos militares, eu estava lá”, frisa. “Eu fui levado também, mas não queriam nada comigo e me dispensaram. Só dias depois é que foram saber que Juscelino estava preso.

O escritório foi desmantelado e eu segui minha vida”.Antônio da Conceição virou então porteiro de uma boate que fazia a cabeça da juventude na época: New Jirau, em Copacabana. Ali conheceu Jorge Bem, Toni Tornado. “A música entrou na minha vida de vez”, lembra o compositor de sambas de escolas como Império Serrano, Salgueiro, Mocidade, entre outras. “Alcione gravou uma música minha: Tatu, engenheiro do metrô.

A música não tocou nas rádios daqui, mas foi vendida pro japão e eu ganhei direitos autorais dela até bem pouco tempo”, garante ele, que apesar de ter tido a sorte de conviver com Dilermando Reis, um dos maiores violonistas do Brasil, carrega a frustração de só tocar cuíca. “Só toco cuíca mesmo. Tive a chance de tocar vários instrumentos, mas acabei só compondo”.Além da pipa, de Juscelino, do samba… na vida de Antônio ainda sobrou tempo para a capoeira. Foi mestre e, segundo ele, o único capoeirista que voou. “Já viu homem voando? Eu voava minha filha”, brinca ele, que mostra uma foto para provar o que diz. “Tá vendo? Tá aqui, registrado”.Depois de tanto rodar e aprender nas ruas da cidade, o baiano voltou para o morro, onde sua mãe viveu a vida toda e de onde, agora, ele não sai mais.

“Quero recuperar essa escola. Essa é minha missão agora”, afirma ele, me mostrando cada detalhe das reformas que está fazendo na quadra da Unidos de Villa Rica.Ao se despedir, ele ainda faz questão de lembrar: “Você está na frente de um cara protegido. Eu vivi na rua, me criei praticamente na rua e sempre tive a proteção do cara lá em cima. Sempre esteve comigo. Sou um cara predestinado, sempre estive ao lado dos bons, dos grandes. Eu só não me marginalizei por dois motivos. Porque sou um cara inteligente e não tenho índole. Mas eu vivi no meio da vadiagem”.

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