Aulas de cidadania e caratê no Morro da Providência

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Estava no alto do prédio da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro da Providência fazendo uma matéria sobre as aulas de caratê quando o professor Hernani Barbosa Lopes foi surpreendido. Cabo da Polícia Militar, ele está ensinando a luta para 155 meninos e meninas da comunidade e se emocionou quando o jovem Marlon Gravino Monteiro, de 16 anos, um dos alunos com maior potencial na turma, disse que sonhava ser professor ao crescer.

– Sonho ser professor de caratê. Quero ser igual ao professor Hernani — disse o jovem, para surpresa do professor, que quase foi às lágrimas:- Não esperava. Uma criança ou um adolescente querer ser como você é maravilhoso. Atuamos como professor, mas muitas vezes como psicólogos. Antes eles queriam ser traficantes ou apenas sobreviver. Agora alguns sonham ser engenheiros, advogados ou até mesmo policiais.

A declaração do jovem serviu como uma recompensa para Hernani, que três vezes na semana dá aulas para crianças de 4 a 17 anos dentro do prédio da UPP. Marlon é alto, forte e nunca faltaram propostas para entrar no tráfico de drogas. Um dos amigos de infância chegou a se envolver e morreu em confronto com a polícia. Um caminho que Marlon nunca quis seguir.

– O esporte para mim é tudo. Mudou a minha vida. Sou livre, muitos dos meus amigos estão escondidos da polícia. Eu não preciso disso — explica Marlon, que descobriu o esporte graças aos três irmãos mais novos (duas meninas e um menino), que também estão fazendo as aulas na UPP.

As aulas começaram um pouco antes da chegada da UPP, mas até então apenas para poucas crianças. O aumento de inscrições tem relação direta com a entrada da polícia pacificadora. Agora já existem 45 pessoas na fila e diariamente pais e mães procuram a UPP tentando inscrever os filhos. As aulas são de caratê, mas quem treina com o professor Hernani aprende a lutar e ainda tem lições de respeito, autocontrole e educação.Enquanto ensina os golpes e os movimentos do caratê para crianças, das faixas amarela e azul, Hernani distribui broncas. Exige educação, quer respeito, ordem e organização. Muitas vezes servindo como amigo e pai, o professor/policial das crianças lembra que o começo foi difícil.

– Quando as crianças souberam que eu era policial a turma esvaziou. Foi preciso conquistá-las. Hoje me sinto realizado. Nunca tinha imaginado conseguir fazer isso pela Polícia Militar — explica ele, que antes dava aulas de caratê no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da Polícia Militar (Cfap).As aulas acontecem em uma sala dentro do prédio da UPP, no primeiro andar. O espaço começa a ficar pequeno e Hernani já sonha mudar para um lugar maior e assim conseguir mais alunos.

– Faço isso por amor. É difícil até financeiramente, mas acho que está valendo a pena – assegura ele, que mora em Araruama e encara cinco horas na estrada.Tanto esforço já começa a apresentar resultado. Em maio, um grupo de 50 crianças viajou para o 1º torneio Zonal Sul-Sudeste da Confederação Esportiva e Educacional Brasileira de Caratê, em Cubatão, interior de São Paulo.

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A equipe UPP Providência ficou com o segundo lugar geral do torneio. Foram mais de 50 medalhas conquistadas. A viagem só foi possível graças a uma parceria com a iniciativa privada. Com apoio do Polo da Nova Rua Larga, Light, Legião da Boa Vontade e Super Rádio Brasil, foram comprados 70 quimonos, 55 protetores bucais e 25 luvas de competição. Também foram pagas as inscrições dos atletas, o transporte e a alimentação para 100 alunos e pais que estiveram no torneio.Veja mais fotos da aula de caratê:

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