Se eu não tivesse visto acho que não iria acreditar. O secretário de Estado de Segurança José Mariano Beltrame tinha acabado de chegar ao Morro São João na manhã desta segunda-feira para a inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que vai atender a comunidade. Ele subia a ladeira na direção do local onde aconteceria o evento quando foi parado por um menino.

O garoto parou o secretário, estendeu a mão direita e falou: “seja bem-vindo à nossa comunidade”. Beltrame agradeceu, os dois trocaram algumas palavras e seguiram para lados opostos. Mas a atitude do jovem Daniel Soares da Silva, de apenas 14 anos, mostra um pouco como foi a recepção dos moradores aos policiais militares. Todos estão felizes e com esperança de dias melhores. Mas não têm coragem de falar. Essa foi a diferença. Daniel, na inocência de um menino, estendeu a mão, recepcionou o secretário e agradeceu. Fui na direção dele para entender porque o menino tinha tomado aquela atitude. Veja o que ele me respondeu:

Fui dar boas-vindas para o Beltrame para que ele seja bem recebido na favela. A gente não gostava quando eram os bandidos. Agora será melhor para brincar aqui na comunidade, jogar o nosso futebol – disse Daniel, que depois foi convidado para subir ao palco, onde conheceu o governador Sérgio Cabral.

Diferente do que aconteceu em outras inaugurações de UPP, o evento no Morro São João ficou lotado. Moradores encheram a quadra, aplaudiram e tiraram fotos. Principalmente as crianças, que deram um show à parte. Fiz amizade com o Gabriel, o Fabrício (mais conhecido como Gordinho), o Vítor, o Yuri e o Renan. Um deles, acho que foi o Gabriel, disse que o grupo estava feliz porque com a chegada da UPP a vida dos moradores iria melhorar muito.

Gostaria de agradecer pela maneira carinhosa e receptiva que a comunidade recebeu os policiais militares e dizer que eles estão preparados para interagir e entender os anseios que as pessoas têm. Foram muitos anos de abandono, mas estamos em um processo de mudança – disse o secretário José Mariano Beltrame.

Muito aplaudido na chegada à comunidade, o governador Sérgio Cabral revelou que viveu na região do Engenho Novo durante seis anos e disse que estava muito feliz de poder devolver a tranquilidade para o lugar onde nasceu. Durante o discurso, Cabral falou ainda sobre a importância para o Estado de recuperar territórios que durante anos ficaram sob o domínio do tráfico.

Agora não tem mais nenhum vagabundo na comunidade de fuzil, dizendo quem deve entrar e quem deve sair. A comunidade é composta em sua imensa maioria por trabalhadores e crianças, que vinham sendo as vítimas dessa guerra. Imagino a vergonha de vocês ao verem um vagabundo subir a comunidade com uma motocicleta roubada, muitas vezes fruto da morte de um cidadão. E vocês verem o Morro do São João servindo como esconderijo para eles guardarem o fruto do roubo. Quando na verdade essa comunidade é feita de gente de bem, de gente séria, trabalhadora – disse Cabral, que prometeu a chegada de serviços públicos e distribuiu até autógrafos.

E os moradores estão carentes de atenção. No pouco tempo em que ficamos na comunidade ouvi muitos pedidos, de saneamento, escola, água e principalmente atendimento médico. Moradora antiga da comunidade, Creusa Vieira dos Santos adorou o evento e está com esperança de dias melhores.

A UPP vai mudar muito a vida dos moradores. Que seja um momento bom, principalmente para essas crianças, que precisam se ocupar com alguma coisa. Estou com esperança de dias melhores. A comunidade agora está em paz – elogiou ela, que mora próximo ao local onde aconteceu o evento.

A 14ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da cidade fica no Engenho Novo e vai atingir cerca de seis mil moradores dos morros São João, Matriz e Quieto. Segundo cálculo da secretaria de Estado de Segurança, a pacificação vai atingir indiretamente 12 mil pessoas, moradores dos bairros da Abolição, Cachambi, Encantado, Engenho de Dentro, Engenho Novo, Jacaré, Lins de Vasconcelos, Riachuelo, Rocha, Sampaio, São Francisco Xavier, Água Santa e Todos os Santos. O comando da unidade pacificadora será do capitão Bruno Xavier, de 31 anos, que terá um efetivo de 200 policiais militares, sendo 35 mulheres. Nascido e criado próximo à comunidade, o capitão Bruno volta ao local onde viveu por cerca de 20 anos. O oficial já foi subcomandante do Grupamento de Policiamento em Estádios (GEPE) e atuou nos Batalhões da Tijuca (6º BPM) e de Rocha Miranda (9º BPM).

É uma comunidade que sofreu durante anos. Estou há duas semanas rodando por aí e a impressão foi muito boa. A chegada da paz trouxe muita esperança para eles. Vamos tentar facilitar a entrada de serviços como luz, gás e coleta de lixo – prometeu o capitão Xavier, que terá um número grande de policiais mulheres:

– As mulheres têm uma abordagem mais sensível e isso facilita a relação com a comunidade. Mas são policiais militares normais, excelentes profissionais e será uma experiência muito boa.Para o coronel Róbson Rodrigues, comandante das UPPs, a instalação de mais uma unidade na região da grande Tijuca vai derrubar os índices criminais. Ele aproveitou a oportunidade para anunciar que a próxima UPP será lançada no Morro do São Carlos, no Estácio.

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